“Aqui, os dois maiores empregadores são a prefeitura e o tráfico. Até quando os haitianos vão se manter longe disso?”, indaga, em tom de franqueza, o delegado da Polícia Federal de Tabatinga (a 1.105 quilômetros de Manaus), Gustavo Henrique. Retidos em uma cidade que não lhes oferece opções de emprego e agora sem perspectivas de chegar legalmente às grandes cidades brasileiras, centenas de haitianos estão tendo de enfrentar o assédio dos narcotraficantes. Mais de um ano depois do início da diáspora rumo ao Brasil, nenhum deles foi preso portando drogas, mas, a dúvida das autoridades locais é: até quando?
Tabatinga é uma das cidades mais perigosas do Amazonas. Cartéis brasileiros, colombianos e peruanos disputam a tiros o lucrativo negócio da cocaína. Encravada em uma das regiões mais pobres do Brasil, a cidade tem oferecido “mão-de-obra” em abundância para abastecer as quadrilhas que traficam a droga produzida na Colômbia e Peru. A chegada dos haitianos acrescentou mais um ingrediente a esse “barril de pólvora”.
O temor de que os novos imigrantes sejam utilizados pelo tráfico é latente em Tabatinga, mas, por medo, poucas pessoas falam sobre o assunto. Diante da carência de recursos financeiros e da falta de esperança de chegar aos seus destinos finais (Manaus, Rio de Janeiro e São Paulo), quem os vê caminhando, aparentemente sem rumo pela cidade, rapidamente imagina que, eles possam se tornar alvos fáceis para os cartéis locais.
“Um homem quando passa necessidade, mesmo tendo boa índole, pode acabar indo para o lado do mal”, diz o prefeito de Tabatinga, Saul Nunes, que teme tanto o poder dos narcotraficantes que só sai de casa na companhia de dois seguranças armados cedidos pela Polícia Militar.
Imunes?
Curiosamente, apesar do temor de que os haitianos possam sucumbir ao assédio dos traficantes, os indicadores mostram que, pelo menos até agora, eles têm resistido. “Nunca prendemos nenhum haitiano transportando drogas. Nem nas fiscalizações no porto e nem nas bases que temos ao longo do rio Solimões”, diz o delegado Gustavo Henrique.
O perigo que ronda os haitianos não é de todo desconhecido. Nas palestras ministradas por integrantes da Igreja Católica e pelos líderes do Comitê dos Haitianos em Tabatinga, o tráfico é um tema recorrente. “Nós sabemos que Tabatinga é um ponto vermelho por causa do tráfico de drogas. Nós orientamos os nossos compatriotas a se manter longe de quem quer que os ofereça algum dinheiro para levar coisas para Manaus”, diz o presidente do Comitê, Ernest Cassius, 33.
Jean Simond Fleurisna, 35, é um rapaz baixo e atarracado que, religioso, carrega um crucifixo de prata no pescoço para onde quer que vá. Ele passou quase uma década morando e trabalhando na República Dominicana como pedreiro. No terremoto de 12 de janeiro de 2010, ele perdeu três sobrinhos. Jean é o filho mais novo de uma imensa família que ficou no Haiti enquanto ele veio para o Brasil em busca de emprego.
Eles venderam tudo o que tinham para conseguir os US$ 4 mil necessários para pagar a viagem entre o Haiti e Tabatinga. O dinheiro se foi, mas Jean diz que para ele e muitos outros compatriotas, o crime não é uma opção. “Não viemos aqui para cometer crimes. Estamos aqui para construir uma vida nova e não queremos problemas com a polícia. Tem muita gente dependendo de mim no Haiti e eu não posso correr esse risco”, diz.
BNC Brasil
