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Antropólogo Luiz Eduardo Soares defendeu proposta para desmilitarizar a corporação |
O antropólogo Luiz Eduardo Soares tem uma posição bastante clara – e, para alguns, polêmica – sobre a polícia brasileira: é preciso desmilitarizá-la urgentemente. Um dos mais respeitados especialistas em segurança pública do País, ele ganhou ainda mais notoriedade quando o livro Elite da Tropa virou best-seller, após sua adaptação para o cinema – o filme Tropa de Elite, que, assim como a obra literária, teve uma bem-sucedida sequência.
A convite da vereadora Fernanda Melchionna (P-Sol), Soares esteve na
semana passada na Câmara Municipal de Porto Alegre, onde palestrou
diante de um plenário lotado principalmente por estudantes e jovens
ativistas. Respaldado pelas experiências compartilhadas por policiais
militares que o ajudaram em alguns de seus trabalhos, e também por seu
trabalho como gestor (foi coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania
do estado do Rio de Janeiro e secretário nacional de Segurança Pública),
o cientista não poupou críticas ao modelo atual de polícia.
“Cartesianamente, só haveria um motivo pelo qual a Polícia Militar
deveria se organizar à imagem e semelhança do Exército: se as metas
fossem as mesmas. E isso não é verdade. Segundo a Constituição, cumpre
ao Exército defender a soberania e o território nacionais, recorrendo a
procedimentos bélicos caso seja necessário. Já a Polícia Militar (PM),
segundo a mesma Constituição, defende os cidadãos da eventual violação
dos seus direitos. Quando se diz que ela deve zelar pelo cumprimento da
lei, entende-se que deve zelar pela defesa da cidadania, impedindo
eventuais violações. Isso nada tem a ver com defender a soberania
nacional por meios bélicos”, argumenta.
Aos que defendem que é dever da polícia manter a ordem e estar “pronta
para o confronto”, Soares rebate: “Alguém pode dizer que há também
situações quase bélicas, de enfrentamento armado. Esses casos
correspondem a menos de 1% das atividades policiais usuais. E você não
vai organizar uma instituição baseada em menos de 1% das suas
atribuições. Pode haver unidades especiais com esse propósito, mas em
99% das situações deve-se proceder conforme as normas previstas para
essa organização”.
PEC 51 tem grande aceitação entre as bases
Desmilitarizar a polícia é apenas um passo, admite Luiz Eduardo Soares.
“É suficiente? Não. Mas é preciso começar por aí”, afirma o antropólogo,
que defende a aprovação da PEC 51, de autoria do senador Lindbergh
Farias (PT-RJ), a qual ajudou a elaborar. Além da desmilitarização, a
proposta prevê a unificação de todas as polícias em uma estrutura
chamada de “ciclo único”, ostensivo e investigativo, e também as
carreiras dos servidores.
“A PEC conta com amplo apoio quando falamos das bases – me refiro aos
subalternos, aos não oficiais. Nesse segmento, uma pesquisa detectou que
70% deles são a favor da proposta”, diz Soares. “Entre os oficiais e
delegados, há os que concordam conosco, mas a situação é um pouco mais
delicada”, revela, alegando que os militares “não têm liberdade para se
mobilizar”. “Não há sindicatos, apenas associações. Quem participa de
uma eventual negociação é o comandante-geral. A estrutura atual barra a
atuação de representantes sindicais”, resume, citando o caso de um
militar que acabou exonerado por propor mudanças na corporação.
Soares acredita que reestruturar o trabalho da polícia também pode ser
um grande estímulo para os servidores. “Com o modelo que temos hoje, o
sujeito inicia a carreira e, se tudo der certo, daqui a 25 anos vai ser
sargento. Enquanto isso, um jovem que estuda Direito, aos 21, 22 anos,
faz uma prova, e, após um mês de adaptação, vai chefiar 30 homens que
estão há 20 anos na área, mesmo sem nenhuma experiência em segurança
pública”, critica. “Na carreira policial, a pessoa trabalha feito um
doido, em uma instituição que não favorece o estudo e não considera o
tempo de experiência. Ela se sente humilhada, pois não pode aspirar uma
ascensão. E a população ignora essa realidade.”
Sucesso de políticas de prevenção envolve esforço coletivo
E qual seria o modelo ideal de polícia, para Luiz Eduardo Soares? Algo
como o proposto na política municipal de segurança que ele planejou em
2001 para o então prefeito de Porto Alegre (e hoje governador) Tarso
Genro.
“A ideia era de um trabalho preventivo, articulando secretarias e
polícias pra reduzir os homicídios dolosos que se concentravam na
Restinga. E, de fato, isso aconteceu durante esse período, pelo menos”,
lembra o antropólogo.
Segundo Soares, detectou-se que os chamados “meninos problema” do
bairro, na verdade, eram crianças que sofriam as consequências de um lar
desestruturado, geralmente com pai alcoólatra e histórico de violência
familiar. “É claro que uma criança nessas condições vai apresentar
problemas na escola, ser mais agressiva. O fato é que essa história tem
um fim previsível”, lamenta.
Manter uma política preventiva, no entanto, exige uma mudança de cultura
e de estrutura, como defende Soares. “Isso funciona quando o policial
atua como um gestor de segurança pública na comunidade. No Brasil, isso
acontece eventualmente, quando as circunstâncias são muito favoráveis.
Em geral, porém, são pouco duradouras. E esse é um desafio que
precisamos enfrentar.”
A postura da PM nas manifestações
Assim como ocorre em Elite da Tropa, obra em que a história é vista sob o
ponto de vista dos policiais, Luiz Eduardo Soares faz uma reflexão
sobre a postura repressiva dos militares nos protestos de junho. “Como
muitas vezes acontece nos confrontos, a gente vê o manifestante com ódio
do policial e o policial com ódio do manifestante, quando a fonte do
ódio de ambos está distante dali”, pondera.
“Eles (policiais) se sentem revoltados com essa situação. Então, quando
lhes pedimos respeito aos direitos humanos, não entendem do que estamos
falando. Essa não é a realidade em que vivem”, observa, ressaltando que
as manifestações de junho foram positivas, apesar da tática adotada
pelos políticos e por parte da mídia para dividir os ativistas entre os
“bons” e os “vândalos”. “Alguns ‘morderam essa isca’, e isso acabou
dificultando a adesão da maioria da população”, analisa.
Voracidade pelo encarceramento
“O Brasil é o país da impunidade”. Quando ouve essa afirmação, Luiz
Eduardo Soares responde, em tom irônico, mas crítico: “o Brasil pune,
sim, e muito. Tínhamos cerca de 140 mil presos na metade da década de
1990, e hoje chegamos a 550 mil. E quem são esses presos? Jovens negros e
pobres. Estamos enjaulando jovens negros e pobres com uma voracidade
feroz”.
Para o antropólogo, criou-se uma ideia de que encarceramento é sinônimo
de produtividade policial (“se não há instrumentos para investigar,
busca-se a saída mais fácil”). Defensor da legalização das drogas, ele
atribui esse “furor encarcerador” não só ao modelo atual da corporação,
mas à mentalidade dos governos, que veem na prisão de pequenos
infratores um modo de dar uma satisfação à mídia e à classe média sem,
de fato, solucionar problema algum. “A proibição das drogas, somada ao
nosso modelo policial, constitui um núcleo de reprodução de
desigualdades e do racismo no Brasil. Não há situação em que o racismo
seja mais pronunciável no País do que na segurança pública.”
Por Daniel Sane
Jornal do Comercio
BNC Segurança
