O texto é Marcella Matos e Gabriel Castro, de Veja.
Na última quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) inovou ao rever sua posição sobre parlamentares condenados pela prática de crimes. Por seis votos a quatro, a Corte decidiu que caberá ao Legislativo deliberar pela cassação ou não dos políticos sentenciados pela Justiça. No extremo, o Brasil poderá se tornar um caso raro no qual deputados ou senadores poderão exercer seus mandatos durante o dia e dormir na cadeia.
Na última quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) inovou ao rever sua posição sobre parlamentares condenados pela prática de crimes. Por seis votos a quatro, a Corte decidiu que caberá ao Legislativo deliberar pela cassação ou não dos políticos sentenciados pela Justiça. No extremo, o Brasil poderá se tornar um caso raro no qual deputados ou senadores poderão exercer seus mandatos durante o dia e dormir na cadeia.
Até o final do ano, é provável que a Câmara dos Deputados analise ao
menos cinco processos de cassação de mandatos de deputados condenados
pela Justiça. O primeiro da fila, inclusive, o ex-peemedebista Natan
Donadon (RO), já cumpre pena no Complexo Penitenciário da Papuda, no
Distrito Federal. Condenado por desviar 8 milhões de reais dos cofres da
Assembleia Legislativa de Rondônia, Donadon se entregou à Polícia
Federal no final de julho, mas uma placa ainda aponta como seu o
gabinete 239 no Anexo IV da Câmara. Ele perdeu o direito ao salário, aos
benefícios e assessores, mas, juridicamente, ainda é um parlamentar
eleito pelo estado de Rondônia. A manutenção do mandato garante algumas
(poucas) regalias para Donadon: ele permanece em uma cela isolada no
presídio, sem convívio com os demais detentos.
Na sequência, a tendência é que a Câmara tenha de deliberar sobre o
futuro do quarteto de mensaleiros: João Paulo Cunha (PT-SP), José
Genoino (PT-SP), Pedro Henry (PP-MT) e Valdemar Costa Neto (PR-SP).
Durante o julgamento do mensalão, o STF votou pela perda imediata dos
mandatos. Mas, com a recente virada no posicionamento da Corte graças
aos votos dos ministros novatos Teori Zavascki e Luís Roberto Barroso,
esse cenário pode mudar: caberá, agora, aos deputados decidirem sobre os
mandatos dos quatro mensaleiros. Ou seja, dado o histórico de
corporativismo e complacência com desvios éticos, tudo pode acontecer.
O último parlamentar que perdeu o mandato na Câmara foi em 2006. O
ex-presidente do PP Pedro Corrêa (PE), que comandava o partido quando o
mensalão operava a todo vapor, deixou o Congresso pelas portas dos
fundos junto com José Dirceu (PT-SP) e Roberto Jefferson (PTB-RJ). Desde
então, foram abertos 89 processos de cassação de mandatos no Conselho
de Ética. Todos os congressistas saíram ilesos. O maior exemplo da
blindagem dos parlamentares aconteceu em 2006, na chamada Máfia dos
Sanguessugas: 69 deputados envolvidos no esquema de desvio de verba
pública para compra de ambulâncias escaparam de punições - a maioria foi
poupada em plenário e, alguns, optaram por renunciar aos mandatos e
poder disputar as eleições seguintes.
O atual presidente do Conselho de Ética, deputado Ricardo Izar (PSD-SP),
diz que o voto secreto em plenário é o principal culpado pelas
absolvições em massa: "Enquanto não se adotar o voto aberto na Casa, vão
continuar esses números ruins".
Outro exemplo recente de parlamentar absolvida em flagrante cena de
corrupção foi a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), filha do
ex-governador de Brasília, Joaquim Roriz. Ela aparece em um vídeo
recebendo 50 mil reais de Durval Barbosa, delator do chamado mensalão do
DEM. Por entenderem que o episódio aconteceu antes de assumir o mandato
na Câmara – a cassação foi analisada em 2011 e a gravação havia sido
feita em 2006 -, Jaqueline foi absolvida por seus colegas.
Também foi absolvido pelo plenário o ex-presidente da Câmara João Paulo
Cunha (PT-SP). Em 2005, os deputados o consideraram inocente na denúncia
de que havia recebido 50 mil reais do operador do mensalão, Marcos
Valério. Sete anos depois, o STF o condenou a nove anos e quatro meses
de prisão. Provavelmente, Cunha voltará a ser julgado em plenário.
Os 17 cassados – Desde a redemocratização do país, apenas 17
parlamentares tiveram a degola aprovada em plenário. O caso mais
emblemático aconteceu em 1994, em um dos maiores escândalos de corrupção
do Brasil. A CPI dos Anões do Orçamento, nome dado em alusão à estatura
dos parlamentares envolvidos, descobriu um esquema de desvio de
recursos do Orçamento da União para empresas relacionadas a deputados,
senadores, ministros e governadores. Seis deputados envolvidos no caso
foram cassados.
Outra cassação que não poderia passar impune foi a de Hildebrando
Pascoal (PFL-AC). O parlamentar foi apontado como o comandante de um
grupo de extermínio responsável pela morte de mais de sessenta pessoas.
Não apenas a quantidade de assassinatos espanta. Em um dos casos que
revelam o nível crueldade com o qual agia, ele ganhou o apelido de Homem
da Motoserra – uma referência à arma utilizada no crime. Hildebrando
foi condenado a mais de cem anos de cadeia.
O ex-deputado Sérgio Naya também se destaca na lista de parlamentares
cassados. Ele perdeu o mandato em 1998, depois que parte do edifício
Palace II, construído por uma de suas empresas na capital fluminense,
desabou. Oito pessoas morreram e a tragédia poderia ter sido maior - um
segundo desmoronamento ocorreu quando o prédio já havia sido evacuado.
As investigações mostraram erros grosseiros na execução da obra. O
concreto empregado, provavelmente produzido com areia de praia, se
esfarelava facilmente. Naya foi cassado pelos colegas por um placar de
277 votos a 163.
