Aliny Gama
Do UOL, em Assunção do Piauí (PI)
O rato-rabudo, também conhecido em partes do Nordeste como punaré ou rato-boiadeiro
A
comida escassa devido à seca está fazendo piauienses caçarem roedores
para complementarem a alimentação. No distrito de Brejinho, no município
de Assunção do Piauí (273 km de Teresina), todos os dias no fim da
tarde é comum ver moradores saindo para as áreas de grutas para
colocarem armadilhas para pegar o "rato-rabudo".
A caça ao animal é
artesanal, e a armadilha é feita com pedra e gravetos. "Quando o rabudo
passa pela armadilha, a pedra cai em cima e ele morre sufocado. No dia
seguinte, a gente vai logo cedo ao local buscar o animal para já ser
consumido no almoço", disse o morador de Brejinho Genivaldo Bezerra, 35.
A reportagem do UOL
tentou encontrar em alguma residência um rato para consumo, mas os
moradores explicaram que como passam muita fome consomem logo o animal.
"Como não tenho dinheiro para comprar carne, aqui é caçando, tratando e
comendo o rabudo. Ninguém fica com ele na geladeira por muito tempo
porque passamos fome e vamos logo comendo", disse Bezerra.

Cidade no Piauí deixa para trás o título de ''mais pobre do país'', mas enfrenta êxodo de jovens
Há dez anos, o
governo federal lançava em Guaribas, no sul do Piauí, o Programa Fome
Zero, com o objetivo de erradicar a miséria. O município conquistou o
principal objetivo: acabar com a miséria. Mesmo assim, ainda está entre
os mais pobres do país e enfrenta o êxodo dos jovens em busca de emprego
em grandes cidades. Segundo o IBGE, entre 2000 e 2007, quase 10% dos
moradores deixaram a cidade Leia maisArquivo Agência Brasil
Apesar de a maioria
dos moradores de Brejinho ter acesso ao programa Bolsa Família, eles
afirmam que o dinheiro que recebem não dá para comprar a "mistura" para o
almoço e acabam saindo à caça de ratos para servir de carne na
alimentação. A dona de casa Francisca Ramos da Silva, 41, não se
incomoda em contar à equipe de reportagem do UOL que a única carne
consumida na casa dela é de rato.
"A gente tem de se
virar. Não plantamos nada neste ano por conta da chuva que não veio.
Ninguém aguenta almoçar com a comida pura e, como o dinheiro que
recebemos só dá para comprar arroz, feijão e macarrão, comemos o rabudo
para complementar", disse Francisca, informando que a carne do rabudo "é
saborosa" e é sempre uma festa quando conseguem caçar alguns ratos.
ONDE FICA

Assunção do Piauí está a 273 km de Teresina
Maior que a ratazana
Segundo o "Guia dos
Roedores do Brasil", o rato-rabudo (Thrichomys apereoides) é chamado
por esse nome porque tem a cauda longa e mais peluda que as demais
pelagens do corpo. O animal é um mamífero roedor encontrado tipicamente
nas regiões Nordeste e Norte do Brasil e habita áreas pedregosas e de
vegetação aberta, como a caatinga e o cerrado, no Brasil, e o chaco, no
Paraguai.
A nutricionista
Patrícia Lima disse que apesar de o "rato-rabudo" viver em áreas
inóspitas no sertão nordestino o consumo da carne é perigoso devido à
transmissão de doenças por também estarem próximos a comunidades sem
esgotamento sanitário.
"Apesar de ser um
rato que come somente frutas e vive em ambientes limpos na mata, o
rato-rabudo também vive perto de comunidades rurais, onde o saneamento é
precário, por isso eles não diferem dos nossos conhecidos ratos,
ratazanas. Devem ser vetores de inúmeras doenças. Os moradores, quando
caçam, podem se infectar dentro de casa quando 'limpam' e tratam o rato
para comer."
A nutricionista
explicou que para ter uma alimentação correta, a dieta deve conter
"carboidratos, proteínas e lipídios, além de minerais e vitaminas". "A
proteína vai depender do costume, dos seus hábitos alimentares das
pessoas, que pode ser encontra em carne animal e até em vegetais como a
soja, grão de bico etc. Na carne do rato com certeza tem proteína de
origem animal."
"É triste saber que
ainda existem pessoas que, devido as necessidades que passam, se
submetem a se alimentar de rato. Mas, por conta da pobreza no Nordeste,
não é de estranhar que se aventurem numa coisa dessa, porque a fome,
sentir fome por diversos dias, dá desespero. Acho que só num caso de
desespero para encarar isso."
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| João Carlos Mazella/Fotoarena/Agência O Globo |
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