| Muitas vezes, as perdas causam um sofrimento não proporcional ao seu tamanho Ilustração: Carlo Giovani |
por Liane Alves, para Vida Simples
Seja a perda de um amor, de um trabalho,
da saúde ou da autoestima, o fato é que às vezes nos encontramos diante
da dor inexorável de quem perdeu. E esse sentimento pode nos afetar
profundamente. A sabedoria, porém, está em saber que há diferentes
maneiras de viver e reagir diante da perda, e ao doloroso período que a
segue.
Reação à perda
Muitas vezes as perdas causam um
sofrimento não proporcional a seu tamanho: uma perda boba pode nos
chacoalhar sem dó nem piedade, enquanto podemos passar batidos por algo
que deveria nos derrubar no chão. Isto é, elas também dependem de nós.
“A reação àquilo que perdemos está sujeita ao histórico anterior da cada
um”, diz o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik ao analisar o
sofrimento gerado por traumas e choques.
Ele também diz que as pessoas que reagem
bem às pequenas perdas (com um alto índice de resiliência, ou
capacidade de voltar a seu estado normal) são as que mais bem se
recuperam diante de um caso mais grave. Portanto, procurar elaborar as
perdas menores do cotidiano pode nos preparar para acontecimentos mais
difíceis.
Colocando para fora
Falar sobre a própria dor, desabafar, é
muito importante. “É o começo da recuperação”, afirma Cyrulnik.
“Verbalizar torna a pessoa mais consciente do que aconteceu. Nesse
processo, ela pode compreender melhor a situação e ultrapassá-la”.
Nesse momento, porém, podemos entrar em
contato com uma raiva que escondemos até de nós mesmos. “Quando uma
pessoa perde um companheiro de muitos anos, por exemplo, ela pode se
sentir abandonada – e com raiva de quem partiu”. afirma a psicóloga
junguiana Mônica Giacomini. Essa raiva, não manifestada, passa então
para o inconsciente. “Enquanto não a elaborarmos, torna-se difícil
iniciar um processo de recuperação”, diz Mônica.
E o período de luto não acontece só por
uma pessoa que morreu, mas também por uma relação amorosa que acabou,
por uma demissão que gerou uma sensação de incapacidade e outras
situações. “A perda da autoimagem e do amor, por exemplo, é capaz de
gerar um luto tão intenso quanto a morte”, diz Mônica. “Enquanto
rejeitar a si mesmo e o que aconteceu, a pessoa vai projetar essa mesma
rejeição nos outros. Para ela, ninguém será capaz de aceitar algo que
ela mesma tem dificuldade de assimilar”, diz Mônica. A recuperação
inclui utilizar recursos criativos que permitam assimilar a dor e
desenvolver maneiras de superá-la.
A libertação
“As perdas mais comuns pertencem ao
universo do ter, àquilo que eu penso que é meu: pessoas, inclusive”, diz
o médico homeopata Adair Zan. Esse sentimento pode se tornar muito
possessivo e gerar um enorme sofrimento. “Não é sábio marcar a vida, ou o
amor, em territórios delimitados. É uma ilusão pensar que somos capazes
de mantê-los a qualquer custo”.
Ele também lembra que a noção de que o
destino foi injusto pode agravar a sensação de dor. É o caso, digamos,
da traição ou de uma demissão arbitrária. “A diferença é que, no exemplo
corporativo, a assimilação é mais fácil. O funcionário é que foi
demitido, não a pessoa. Já na traição, a dor é pessoal, carregada de
peso cultural”, afirma Zan.
O médico acredita que, por meio de uma
reflexão verdadeira, é possível chegar a um novo equilíbrio. Enxergar
sua responsabilidade num processo de separação também é curativo. “O
ideal é que o namorado ou o cônjuge pudesse um dia sentar e conversar
com o ex-parceiro sobre isso, para chegar às verdadeiras causas do
rompimento. Como é bem difícil isso acontecer, podemos traçar esse
caminho com a ajuda de um terapeuta”, avalia.
Pausa para o recomeço
Quando uma situação ou um ciclo acaba, é
preciso reconhecer que algo mudou e que a vida não será a mesma.
“Precisamos de um tempo para voltar a pulsar de maneira plena, com
energia suficiente para fazer frutificar novas ideias ou formas de se
relacionar. Quando deixamos um ciclo de fato se encerrar, sem pressa,
conseguimos voltar à vida mais íntegros”, afirma a psicoterapeuta Sandra
Taiar.
Ao conseguir empreender essa tarefa,
estaremos prontos para superar a dor e juntar forças a fim de encarar as
inevitáveis mudanças geradas pela perda. Nesse ponto de reconciliação
com a vida, os danos gerados por ela já serão mais administráveis. E a
compreensão de que há uma maneira mais sábia de passar pelo sofrimento
pode nos ajudar muito.
BNC Cotidiano