Por Eugenio Mussak
Dizemos que a mentira tem pernas curtas
porque sabemos que ela não costuma ir muito longe. Cedo ou tarde, ela
cambaleia, tropeça e acaba sendo alcançada pela verdade. Isso acontece
por, pelo menos, dois motivos: primeiro, porque quando mentimos fazemos
mais esforço do que quando dizemos a verdade, em função do dilema moral
envolvido, ainda que inconsciente. Segundo porque, quando precisa ser
repetida, a mentira perde força, sendo contaminada por fragmentos da
verdade ou por outra mentira, pois sua base não é a realidade, e sim a
ficção. Mentir significa “inventar” uma verdade que não existe. A
mentira começa com a pessoa, a verdade é anterior a ela.
Mas, afinal, por que mentimos?
A psicologia explica a mentira pelo
mecanismo de defesa, a sociologia pela busca do poder, a filosofia pela
imperfeição humana e a religião pela compulsão ao pecado. As
explicações, entretanto, quase nunca justificam a mentira ou desculpam o
mentiroso.
Mecanismo de defesa
Desde a infância mentimos para nos
isentar de culpas ou para alcançar o que queremos. Estudos indicam que
apenas até os 3 meses de idade um bebê é incapaz de mentir. Após essa
idade, aprende a se utilizar artifícios para chantagear seus pais.
A mentira pode ocorrer de maneira
consciente ou inconsciente. Em sua forma inconsciente, acontece um
processo denominado pela psicologia de mecanismo de defesa, que pode ser
de três tipos: negação, projeção e introjeção. Negamos as sensações
dolorosas, como se não existissem. Projetamos nos outros, ou nas coisas,
fatos nossos que nos são repugnantes. Introjetamos objetos de desejo,
que podem ser coisas ou pessoas, como se fossem nossos.
Já a “mentira justificada” tem como
objetivo esconder ou falsear fatos, buscando o bem para nós mesmos e
para nossos semelhantes. Contudo, se a prática da mentira não envolver o
hábito, a perversidade e a hostilidade, e se não deixar seqüelas, ela
pode ser útil e até necessária.
Realidades subjetivas
Mas, veja bem, mesmo sabendo que
qualquer interpretação da realidade é subjetiva, isso não serve como
desculpa para sair por aí contando mil e uma fábulas. A mentira
consciente é aquela em que sabemos que estamos dando uma indicação
contrária a essa realidade que percebemos. Quando mentimos, sabemos que
estamos mentindo. Isso faz toda a diferença, por que é nesse momento que
temos a possibilidade de escolher se queremos faltar com a realidade ou
não.
Seria uma grande mentira dizer que você
nunca mais mentirá, pois você é um ser humano. E a mentira é um desses
defeitos “excessivamente humanos” – como diria Nietzsche. Mas, como ser
humano, é possível cultivar o hábito de sempre se observar para
constatar se sua relação com a verdade e com a mentira é saudável o
suficiente para que você mantenha uma boa relação consigo mesmo. Sem se
enganar.
* Eugenio Mussak é educador e escritor
BNC Cotidiano
