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2 de novembro de 2014

AÇÃO URGENTE: Comunidade ameaçada por fazendeiro local

©Renata Neder
©Renata Neder

Cerca de 20 famílias da comunidade quilombola de São José de Bruno, localizada em Matinha, no estado do Maranhão, estão sendo ameaçadas e intimidadas por um fazendeiro local. O fazendeiro colocou um homem armado na região para pressionar os membros da comunidade a saírem das terras restantes.

Há cerca de três meses, um fazendeiro local invadiu parte do território da comunidade São José de Bruno, desmatou e cercou parte da área e soltou seu gado ali, impedindo que algumas das famílias mantivessem seus cultivos na área. Após diversas tentativas, por parte da comunidade, de protestar contra as ações ilegais do fazendeiro, ele contratou um homem armado para patrulhar a região.

O fazendeiro também ameaçou verbalmente alguns membros da comunidade e disse que pretendia tomar as terras, que pertenciam a ele e que “isso poderia até mesmo resultar em mortes”.

São José de Bruno é o lar de cerca de 20 famílias e já foi oficialmente reconhecida como território quilombola em setembro de 2013. Em dezembro de 2013 o Instituto de Terras do Maranhão (ITERMA) formalmente reconheceu o direito da comunidade à terra, uma área de cerca de 380 hectares.

Os moradores de São José de Bruno dizem que denunciaram as ameaças contra a comunidade no passado e a recente presença de um homem armado às autoridades locais e à polícia. Entretanto, não houve resposta ou ação das autoridades. Em setembro de 2014, a comunidade registrou um boletim de ocorrência na delegacia de polícia local. Semana passada, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais também entrou com uma petição requerendo que o estado tomasse providências para proteger as terras da comunidade contra invasões.
A presença de um homem armado criou uma atmosfera de medo e intimidação que tem sido agravada pela falha do estado para responder ao apelo da comunidade por proteção.

Conflitos por terra e ameaças de violência e ataques contra comunidades rurais e quilombolas são frequentes no estado do Maranhão. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, cinco líderes rurais comunitários já foram mortos em 2014 como resultado de conflitos por terra no estado.

Fonte: Anistia Internacional
BNC Comunidade

Responsáveis pelo assassinato de líder quilombola no Maranhão precisam ser julgados

São Luis - Flaviano Pinto Neto, líder da comunidade do Charco no Maranhão, foi morto no dia 30 de outubro de 2010. Quatro anos depois, os responsáveis pelo assassinato não foram julgados. O inquérito policial foi concluído em abril de 2011, mas até o momento a justiça não pronunciou os réus para levá-los a julgamento.

“Este caso é emblemático pois retrata as injustiças que sofrem aqueles que defendem direitos humanos no Brasil”, afirma Renata Neder, assessora de direitos humanos da Anistia Internacional. “Com a demora em levar o caso a julgamento, o governo está negando justiça à família e se omitindo em evitar o assassinato de outras lideranças rurais”, opina.

O estado do Maranhão é cenário de muitos conflitos de terra e violência contra os trabalhadores do campo. Os dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra indicam que 34 pessoas foram assassinadas em decorrência de conflitos por terra no Brasil em 2013, sendo três delas no estado do Maranhão. Em 2014 – até outubro – já foram cinco lideranças rurais.

A impunidade também é alarmante. Dados da Pastoral da Terra mostram que, dos 1.600 casos de assassinatos entre 1985 e 2009, apenas cerca de 5% foram levados a julgamento.
Flaviano foi baleado sete vezes. Além de ser um líder comunitário, ele era presidente da Associação dos Pequenos Produtores Rurais do Povoado do Charco. Ele era parte da luta para que sua comunidade fosse reconhecida oficialmente como quilombo e tivesse seu direito à terra garantido. Em 2012, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) concluiu o Relatório Técnico de Identidade e Demarcação. Agora, faltam os passos administrativos que dependem, em grande medida, de vontade política e priorização por parte das autoridades competentes.

“O lento avanço nas etapas burocráticas resulta em ameaças e até ataques aos membros da comunidade. Isto tem que parar. Hoje é um dia triste, pois o assassinato do Flaviano completa quatro anos. Pedimos ao governo brasileiro justiça para este caso e tantos outros como o dele”, disse Renata Neder.

Fonte: Anistia Internacional
BNC Maranhão

22 de novembro de 2013

MPF/AM faz recomendações em defesa dos direitos de comunidade quilombolas

O Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM) expediu, na terça-feira, 19 de novembro, duas recomendações com o objetivo de assegurar celeridade na tramitação dos processos de reconhecimento de comunidades localizadas na zona rural do município de Barreirinha e em Manaus como remanescentes de quilombos. As medidas foram anunciadas durante audiência pública na sede do órgão, realizada com o objetivo de debater a situação dos quilombolas e os direitos da população negra no Estado, que contou com a participação da subprocuradora-geral da República e coordenadora da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, Deborah Duprat.

A primeira recomendação foi destinada ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), para que realize as próximas etapas que lhe cabem no processo administrativo de reconhecimento e titulação das comunidades de Boa Fé, Ituquara, São Pedro, Tereza do Matupiri e Trindade, localizadas no município de Barreirinha (distante 331 quilômetros de Manaus), como quilombolas. As comunidades receberam a certificação da Fundação Cultural Palmares no início de novembro deste ano e agora aguardam as próximas fases do processo. Na recomendação, o MPF/AM também pede ao Incra que conclua e divulgue o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação das comunidades em 90 dias e finalize o processo de demarcação e titulação das terras no prazo máximo de dois anos.

Presente na audiência pública, a presidente da Federação das Organizações Quilombolas do Município de Barreirinha, Maria Amélia dos Santos Castro, defendeu o reconhecimento das comunidades e agradeceu ao procurador da República Julio José Araujo Junior pelo apoio do MPF, por meio da recomendação. “Estamos sofrendo pressões dos fazendeiros que querem tomar nossas terras. Precisamos que o processo não demore para viver em segurança e poder plantar nossa comida. Vivemos da terra e é por isso que estamos lutando”, afirmou a líder comunitária.

A necessidade de dar um pontapé inicial no processo de certificação da centenária comunidade do Barranco, localizada em um bairro de Manaus cuja história se confunde com a da população negra que migrou para a capital amazonense no século XIX, a Praça 14 de Janeiro, também motivou o MPF/AM a expedir recomendação. No documento, o procurador da República Julio José Araujo Junior pede à Fundação Cultural Palmares que instaure processo de certificação da comunidade em até 30 dias e realize visita técnica para prestar esclarecimentos aos moradores do Barranco e colher os elementos necessários para a emitir parecer sobre a certificação.

Discriminação e invisibilidade – Os impasses enfrentados pela população negra para ter acesso a direitos básicos garantidos pela Constituição Federal dominaram a pauta de discussões da audiência pública, que contou com a participação de representantes de movimentos sociais, culturais e religiosos dos negros e de entidades da sociedade civil ligadas ao tema, comunitários e representantes de órgãos públicos como Incra, Secretarias de Educação do Estado e do Município e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Situações de constrangimento contra negros que vivem em comunidades do interior do Amazonas foram relatadas diversas vezes durante os trabalhos de campo do pesquisador doutorando em antropologia Emmanuel de Almeida Farias Júnior, que integra o projeto Nova Cartografia Social da Amazônia. Na audiência, ele citou como exemplo a existência de regiões habitadas por famílias de negros que são conhecidas pelos demais moradores da localidade por nomes pejorativos como “lago dos macacos” e “rio dos pretos”, em clara manifestação racista. O mapeamento realizado pelo projeto identificou, até o momento, 25 situações de comunidades negras em áreas rurais em diversos municípios como Manicoré, Humaitá e Novo Aripuanã. A maior parte delas, segundo o pesquisador, não se identificam como quilombolas.

Diante das falas de representantes dos órgãos públicos e das lideranças do movimento negro no Amazonas, a subprocuradora-geral da República Deborah Duprat disse ter sido “negativamente surpreendida” com a invisibilidade da questão negra no Amazonas. “Espero que esse seja o primeiro passo para que a questão dos quilombolas e negros neste Estado tenha o tratamento que merece e ganhe mais espaços de reflexão na busca por avanços efetivos. Não tinha noção de que havia essa situação tão latente no Amazonas”, declarou.

Para o procurador da República Julio José Araujo Junior, que propôs a realização da audiência pública como parte da programação “+ quilombola” em alusão ao mês da Consciência Negra, a discussão está longe de se esgotar em apenas um debate. Ele afirmou que acredita no poder de debates francos e democráticos para a promoção da mudança social e colocou o MPF à disposição para participar e atuar sempre que necessário. “Esse momento foi iniciado a partir da primeira reunião que realizamos com os movimentos sociais de Manaus em geral, mas não acaba aqui. O MPF/AM vai acompanhar todas as reivindicações para garantir, dentro de sua competência, o respeito aos direitos assegurados pela Constituição Federal a qualquer grupo social que os reivindique”, finalizou.

Com informações da Assessoria de Comunicação da Procuradoria da República no Amazonas
BNC Brasília