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31 de março de 2014

A nova divisão da Ucrânia



Osvaldo coggiola (professor titular DE historia econômica da USP)

Kiev - Os Estados Unidos e a União Europeia reagiram com cautela frente à anexação da Criméia pela Rússia. Sanções foram adotadas contra alguns oligarcas ligados a Putin no banco Rossia, ou advertiram ao magnata do petróleo Gurkov para que vendesse suas ações, para evitar contratempos para a empresa com sede na Suíça. 

O monopólio russo do alumínio, Rusal, não teve problemas quando se apresentou para renegociar uma dívida de 10 bilhões de dólares com os bancos ocidentais. Durante a ocupação das tropas russas na Crimeia, que levou duas semanas, os líderes militares da Ucrânia na península nunca receberam diretivas do governo central. Como não cansaram de repetir Obama e consortes, as retaliações contra a Rússia só terão um caráter real se ela for além da ocupação da Criméia. A velha região de população tártara foi reconhecida pelas grandes potências como parte da "zona de influência" da Rússia. É o que já tinha acontecido desde antes da eclosão da crise, como resultado do Tratado de Budapeste (1994) que transferiu à Rússia o arsenal nuclear instalado na Ucrânia e também lhe concedeu o uso do porto de Sebastopol para sua frota no Mar Negro.

O clamor da mídia contra a anexação da Criméia mal consegue esconder que os paises da OTAN conseguiram transformar a Ucrânia em um protetorado. Isso é importante porque reforça o governo da troika (FMI, BCE, Comissão Europeia) sobre os países que integram a UE. O governo provisório da Ucrânia é um fantoche das potências imperialistas, posto por elas com o voto do parlamento (Rada), que ainda é controlado pelo partido do ex-presidente em fuga, Viktor Yanukovich. 

Com esse governo fantoche, que não foi eleito por ninguém e foi até mesmo repudiado pela multidão que ocupou três meses a Praça da Independência da capital ucraniana, Kiev, a Comissão Europeia aproveitou a anexação da Criméia para fazê-lo assinar o "Tratado de Adesão" - um eufemismo que converte a Ucrânia em uma colônia do FMI. Na verdade, com uma dívida externa impagável de 100% do seu PIB, mas, sobretudo, com vencimentos imediatos de 20 bilhões de dólares e um Tesouro exausto, a Ucrânia recorreu à ajuda internacional em troca de um plano de ajuste que envolve um enorme tarifaço e a abertura de seu mercado interno, especialmente a entrega a empresas estrangeiras de seus estabelecimentos agrícolas, sendo o celeiro da Europa. 

Grande parte da dívida ucraniana é com a Rússia, de modo que os credores ocidentais poderiam extorquir Putin com o "não pagamento". Para adicionar tempero, o último empréstimo da Rússia para a Ucrânia (do qual apenas três bilhões de dólares de 15 bilhões foram desembolsados) foi financiado com uma colocação russa na Bolsa de Londres - ou seja, a dívida com a Rússia é, na verdade, uma obrigação com a City. Aqueles que sustentam que a ocupação russa da Criméia foi um ato de resistência ao imperialismo devem ser lembrados que a operação envolveu a entrega de toda a Ucrânia ao capital financeiro internacional e à UE.

As chancelarias ocidentais estão agora ameaçando com forte retaliação se a Rússia for além disso. Embora a Rússia o desminta, lhe é atribuída a intenção de anexar as províncias do leste da Ucrânia e a região moldava de Transnístria , de maioria russa. A Moldávia assinou o tratado de adesão à União Europeia em novembro passado. Para contrariar esta possibilidade, o governo fantoche da Ucrânia designou aos oligarcas mais proeminentes do leste como governadores dessas regiões. 

Deixou em evidência que a oligarquia da Ucrânia, com uma ou duas exceções, mudou de lado para a UE. A Rússia, por sua vez, tem a intenção de usar as eleições a serem realizadas na Ucrânia no próximo 25 de maio (em singular coincidência com as eleições parlamentares da UE) para propor reformas constitucionais que transformem a Ucrânia em um estado federal. Curiosamente, ainda não se ouve qualquer oposição da OTAN para estas intenções, o que sugere uma negociação para institucionalizar a divisão da Ucrânia.

A divisão da Ucrânia envolveu um salto de qualidade dos antagonismos dentro do bloco imperialista ocidental. A Alemanha e, em menor escala, Itália, simpatizam com a possibilidade de uma aliança estratégica com a Rússia, para competir com o capital norte-americano. A infraestrutura de gás e os enormes investimentos na Rússia criaram para esses paises uma relação política que os EUA não têm. A propaganda para que o fornecimento de gás da Rússia seja substituído por gás não convencional produzido pelos Estados Unidos, da mesma forma que aquela que defende um tratado transatlântico entre os EUA e a UE, procura mudar o foco estratégico delineado principalmente pela Alemanha. Mais uma vez na história a questão da Ucrânia adquire dimensões estratégicas. O destino histórico da Ucrânia está ligado ao destino da restauração capitalista no vasto espaço da Rússia, que foi iniciada pela oligarquia que agora alega estar fazendo uma resistência ao imperialismo.

A independência e unidade da Ucrânia significa, acima de tudo, uma luta contra o ajuste e a confiscação econômica - o foco da luta dos trabalhadores em todo o mundo. A anexação russa da Crimeia, por um lado, e a submissão da Ucrânia à UE, por outro lado, são obstáculos intransponíveis para a unidade dos trabalhadores da Ucrânia contra o ajuste. Somente um governo operário e camponês poderia garantir os direitos políticos das diferentes regiões da Ucrânia. Aqui reside o núcleo de uma estratégia para a esquerda revolucionária. 

Só a unidade da classe trabalhadora contra o capital predatório pode derrotar e destruir a União Europeia (em unidade com o proletariado europeu) e derrotar os especuladores capitalistas russos e a restauração capitalista. Somente um governo operário e camponês poderia garantir os direitos políticos das regiões da Ucrânia. 

Os defensores da UE dizem apoiar o direito à autodeterminação nacional da Ucrânia e, portanto, o direito de decidir a adesão à UE, sem dizer que isto implica tornar-se um protetorado e desistir da independência nacional. A Rússia que reivindica o direito de defender-se da OTAN é a Rússia do roubo capitalista e da opressão de outras nações (não é a Rússia operária e camponesa da revolução de 1917), a mesma que com suas ações entrega a causa nacional da Ucrânia para os agentes internos da União Europeia e dos Estados Unidos. A questão da Ucrânia é um teste para as correntes que se reivindicam marxistas em todo o mundo .

3 de março de 2014

Forças russas controlam Crimeia; Kerry viaja para Kiev na terça 45

Kiev - As forças russas já têm sob seu controle a península da Crimeia, região autônoma no sul da Ucrânia, segundo informaram neste domingo (2) funcionários do governo norte-americano.

Numa tentativa de buscar uma solução diplomática para a crise ucraniana, o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, deve chegar em Kiev na próxima terça-feira (4) para oferecer seu apoio aos novos líderes interinos.

"O secretário viajará a Kiev. Estará lá na terça-feira", disse um alto funcionário da administração norte-americana, acrescentando que forças russas estão, "atualmente, em completo controle operacional na península da Crimeia".

O novo primeiro-ministro ucraniano, Arseniy Yatsenyuk, declarou que o país está "à beira de um desastre" após a "declaração de guerra" feita pela Rússia. "É o alerta vermelho. Não é uma ameaça, é, na verdade, uma declaração de guerra ao meu país", disse o premiê.

O governo dos Estados Unidos reiterou neste domingo sua disposição em cooperar com a Rússia na busca de uma solução diplomática para a crise da Ucrânia, mas advertiu ao governo russo que a invasão da Crimeia pode custar sanções e o isolamento internacional.

A Alemanha também está empenhada nas negociações com o governo russo para encontrar uma saída para a crise. Segundo comunicado oficial, a chanceler alemã, Angela Merkel, conversou por telefone neste domingo com o presidente russo, Vladimir Putin, que teria aceitado a proposta de iniciar "imediatamente" um diálogo político com a Ucrânia.

Mais cedo, o secretário de Estado americano havia classificado a ação russa na Crimeia como "um ato descarado de agressão" e ameaçou o governo de Putin com sanções.

"Os Estados Unidos continuam suas consultas com aliados e parceiros em todas as partes do mundo e estão dispostos a impor sanções, a ir até o extremo para isolar à Rússia devido a esta invasão", disse.

"É uma violação da lei internacional e uma violação da Carta das Nações Unidas", sustentou Kerry, que apareceu em quase todos os programas dominicais de televisão. "É uma ação do século 19 que põe em dúvida a capacidade da Rússia de viver no mundo moderno."

Kerry ressaltou que, "se a Rússia quer seguir sendo membro do Grupo dos 8, deve se comportar como um membro do Grupo dos 8", e acrescentou que o governo dos EUA considera a possibilidade de declarar um boicote à cúpula da entidade, programada para junho na cidade russa de Sochi.

Tanto Kerry quanto o chefe do Pentágono, Chuck Hagel, entrevistados pelo programa "Face the Nation" da rede "CBS", disseram que o presidente Barack Obama mantém abertas todas as opções.

Ingresso na Otan

A Ucrânia, da mesma forma que Geórgia, país invadido pela Rússia em 2008, expressou interesse em se incorporar à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e tem fronteiras com a Polônia, Eslováquia, Hungria e Romênia, todos membros da aliança.

Uma base aérea temporária americana na Romênia, que servirá como ponto principal para as forças norte-americanas que saem do Afeganistão, alcançou oficialmente sua capacidade operacional plena na sexta-feira passada, segundo informaram fontes militares.

Desde 2 de fevereiro, 6.000 soldados americanos passaram pela Base Mihail Kogalniceanu, 40 quilômetros ao noroeste da cidade de Constanta, sobre o Mar Negro. A base desempenha o papel que durante muito tempo foi do Centro de Passagem de Manas, perto de Bisqueque, a capital do Quirguistão.

Os especialistas em assuntos militares consultados pela imprensa americana assinalaram, de forma quase unânime, que os Estados Unidos não têm opções militares reais para responder à ocupação russa da Crimeia.

BNC Mundo