A Comissão da Verdade de São Paulo apresentou nesta sexta-feira, 20,
um documento que aponta o envolvimento da reitoria da Universidade de
São Paulo (USP) com os aparelhos de repressão do regime militar
brasileiro (1964-1985).
O ofício em questão foi enviado pela USP aos órgãos de espionagem da
ditadura, como o Departamento Estadual de Ordem Política e Social
(Deops), em 1º de dezembro de 1975, e dava detalhes sobre a Semana dos
Direitos Humanos que aconteceu de 10 a 15 de novembro daquele ano.
O documento registrava o nome dos palestrantes, como os professores
Dalmo Dallari (Direito), Francisco de Oliveira (Economia e
Administração) e Carlos Guilherme Motta (Filosofia). Também fazia uma
relação dos centros acadêmicos que haviam organizado o evento, como o da
Faculdade de Direito e de Medicina.
Segundo o coordenador da Comissão estadual, Ivan Seixas, na USP
atuava uma Assessoria Especial de Segurança e Informação (AESI),
responsável por repassar informações ao governo autoritário.
Seixas afirma ainda que, com base na documentação levantada, é
possível constatar que não havia os "porões da ditadura", mas sim uma
estrutura de repressão política que se espalhava por toda a sociedade e
obedecia a uma ordem de comando.
A audiência de ontem foi acompanhada pela advogada Rosa Cardoso, membro
da Comissão Nacional da Verdade. Pela manhã, o grupo ouviu o depoimento
do historiador americano Kenneth Serbin, que estudou a relação entre a
Igreja Católica e as Forças Armadas durante o regime militar no Brasil.
Para Serbin, as comissões da verdade deveriam ter sido criadas na
década de 1990, pois agora, mais de 25 anos depois, teriam condições de
trazer poucos resultados concretos. "As comissões da verdade chegaram
tarde demais (ao Brasil). Deveriam ter sido feitas nos anos 90. Com o
tempo, o povo começa a esquecer o que foi o regime militar", afirmou.
"Olhando como historiador, acho que demorou demais."
Fonte: Estadão
BNC História