24 de novembro de 2013

BLOG ROBERT LOBATO: Sexta-feira Quente com Haroldo Saboia Parte I

Blog do Robert Lobato tem o prazer de contar nesta “Sexta-Feira Quente” com a presença do presidente estadual do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), o exe-deputado federal Haroldo Freitas Pires Saboia.
Ex-deputado constituinte pelo PMDB, Sabóia é um dos personagens políticos mais emblemáticos das oposições e das esquerdas maranhenses.
Nesta entrevista à coluna Sexta-feira Quente – que dividiremos em duas partes, a segunda publicaremos amanhã – o  dirigente psolista abriu a alma e o coração e falou sobre a sua infância, participação no movimento estudantil secundarista, militância em organizações de esquerda durante a ditadura, constituinte, oposição ao grupo Sarney, governos Roseana e Edivaldo Júnior, eleições 2014, entre outros assuntos.
Nesta primeira parte da entrevista, Haroldo Sabóia fala em detalhes sobre a influência da família na sua formação política, em particular do seu pai, e faz ainda um resgate histórico interessantíssimo sobre momento importantes da sua trajetória política que, às vezes se confunde, com a própria história recente da política no nosso estado.
Fiquem com a primeira parte da Sexta-feira Quente com Haroldo Saboia, a quem o Blog do Robert Lobato agradece pela cordialidade e gentileza por conceder esta entrevista. Veja:
“Não iria permanecer nem no PMDB e nem no PT depois que passaram a ser controlados, de cima para baixo, pelos interesses dos Sarneys”
HAROLDO POR ELE MESMO
Aos 63 anos de idade, posso dizer que sou, fundamentalmente, um militante politico de esquerda, desde jovem. Ainda com apenas 17 anos, em julho de 1967, em Brasilia, entrei para a militância no movimento estudantil secundarista integrando uma organização de esquerda chamada “Ala Vermelha”, do PcdoB.
Logo em seguida, em janeiro de 1968, fui aprovado no vestibular para o curso de jornalismo da Universidade de Brasília, UnB, criada pelo grande Darci Ribeiro. Dois meses depois já era repórter, na sucursal de Brasilia, do maior jornal do pais de então “O Estado de São Paulo”. Era a um só tempo, repórter, estudante universitário e militante contra a ditadura.
Contudo, já havia trabalhado antes . Ainda no Ginásio, o Colégio Maristas, em que estudava, mantinha, a noite, um curso preparatório para o Exame de Admissão (um verdadeiro “vestibular”) para adultos. E eu, na terceira e quarta serie do antigo Ginásio, com os meus 13 ou 14 anos, dava aulas de Geografia . Trabalho remunerado, um pouco mais que um salário minimo. Ainda hoje tenho a felicidade de encontrar ex-alunos, alguns já próximos dos oitenta anos.
A FAMÍLIA E O ENCONTRO COM A POLÍTICA
Tive uma infância muito feliz. Estudei no Jardim de Infância D. Francisco, na Praça da Alegria, e o primário na Escola Modelo Benedito Leite, na Praça de Santo Antônio. Na Escola Modelo tive grandes professoras como Maria Jose Muniz , Cota Varela, Bibi Carvalho, entre outras;.
Ressalto que a professora Maria Jose Muniz foi muito importante na minha vida politica. Foi ela quem me levou para a Liberdade, para a Floresta (onde morava humildemente ) e muitos outros bairros de São Luis. Fazia campanha pela oposição o ano inteiro Isso tudo contribuiu para o meu encontro com a politica desde muito cedo.
 A família e influência do pai – Meu pai, José Pires de Saboia Filho, poeta, jornalista e advogado, desde a década de 40 veio do Ceará para dirigir os Diários Associados no Maranhão e no Piaui. O maior grupo de comunicação do País, fundado pelo ultra-conservador Assis Chateaubriand, que tinha aqui “O Imparcial”, matutino, a “Pacotilha- O Globo” e ainda a Radio “Gurupi”. De formação Liberal conservador, papai respirava política.
Minha mãe, Iracema Martins de Freitas, nascida no Brejo dos Anapurus, pertencia a uma família bastante envolvida com a politica e aliada ao vitorinismo. Seu tio José de Freitas, irmão do meu avo Raul, tinha uma fortíssima liderança politica no Baixo Parnaíba, dividida com seus cunhados e primos, os Freitas Diniz (Benedito, Edson, João Batista e o Silvio, pai do futuro deputado do MDB autentico da resistência a ditadura militar, Domingos Freitas Diniz ).
Terceiro de sete filhos, com duas irmãs mais velhas, foi o primeiro dos cinco homens; circunstância que deve ter sido determinante para que me tornasse a maior companhia do meu pai, que me levava para tudo que era lado e, sobretudo, praticamente todas as noites para o velho casarão da rua Afonso Pena n° 46, onde funcionava O Imparcial.
No Jornal – Assim, minha infância tem o cheiro do chumbo quente, derretido, das velhas linotipos, tem o barulho veloz da rotativa que imprimia quatro páginas de uma só vez e utilizava papel em enormes bobinas, uma revolução para a época. E também das impressoras planas, lentas e preguiçosas que exigiam um trabalho terrível dos operários que dobravam pela noite a fora as paginas impressas.
Conversava com os gráficos, com os revisores, com os telegrafistas e com o pessoal da redação e os jornalistas. E ouvia as discussões sobre o governo de Getúlio, os anos de Juscelino etc; lembro da renúncia de Jânio e da Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola pela posse de Jango, em 61, e das terríveis semanas que antecederam ao golpe militar de 1° de abril de 64.
Neste momento, ainda com treze anos já tinha uma clara opção a favor das “reformas de base” de Jango, contra o golpe, contra os militares e em defesa da democracia.
Também já ensaiava participação no movimento estudantil, no grêmio dos Maristas, o Grêmio Cultural Coelho Neto, do qual fui membro, como secretario e vice presidente de duas diretorias eleitas contra as chapas apoiadas pela direção da escola.
Como você pode ver, meu encontro com a politica se deu como que naturalmente e para toda a vida.
PROFISSÕES: ECONOMISTA, JORNALISTA, ADVOGADO E ANALISTA DE SISTEMAS
Aí há uma equivoco: não sou analista de sistemas [o blog havia pesquisado um pouco sobre o entrevista e localizou a informação no perfil do então deputado no site da Câmara, informação equivocada portanto). Acontece que, como economista, fui contratado pela CODEVASF como Analista de Desenvolvimento Regional. E o serviço de publicações da Câmara Federal, responsável pela biografia dos deputados, no lugar de economista colocou que eu era analista de sistema; e eu fui esquecendo, deixando para depois e acabei por não reparar este engano que aparece até hoje nas publicações da Câmara Federal.
Na realidade, sou economista formado pela Universidade de Paris I, Panthéon Sorbonne, membro do Conselho Regional de Economia do DF; e advogado formado pela UnB, Universidade Federal de Brasilia e membro da Ordem dos Advogados do Brasil – secção do DF.
Como economista, sou servidor da CODEVASF, empresa pública da qual estive afastado ao exercer os mandatos para os quais fui eleito e depois cedido para a Câmara Federal.
Com a instalação da Superintendência em São Luis, deixei a Câmara e fui automaticamente lotado aqui.
VIDA NO EXTERIOR E INDIGNAÇÃO 
Recebo com com indignação, mas sem me surpreender, as críticas dirigidas a mim pelo fato de ter morado no exterior uma parte da minha vida. Da mesma maneira que encaro a "estória" criada por um jornalista já falecido, logo depois que fui eleito em 1978, pela primeira vez, deputado estadual .
Esse jornalista, na época, era editor chefe do jornal da oligarquia “O Estado do Maranhão” e inventou que o período que passei na França (de 1971 a 1977 ) tinha sido custeado pelo coronel Jose Sarney.
Até hoje tem gente que, para bajular os poderosos da oligarquia, finge acreditar nisso e, pior, ainda se presta a espalhar.
Mais recentemente, após o mandato de vereador por São Luis, estive na Bélgica no ano de 2005 e voltei ainda no primeiro semestre de 2006, antes da campanha vitoriosa do Jackson para governador. Quase oito anos depois tem gente que ainda diz que estou fora do Maranhão.
Veja como é dificil e desigual para os autênticos oposicionistas enfrentar a poderosa máquina de desinformaçao e mentira, montada pela oligarquia Sarney, no Maranhão, com dinheiro público, desde os tempos da ditadura militar!
EXPERIÊNCIA NO MDB E OUTROS PARTIDOS
Militei no PMDB de 1977 a março de 1990. Treze longos anos. No PT, de março de 1992 a setembro de 2005 . Treze anos e meios . Saí de um e de outro quando entendi que não havia mais espaço para o enfrentamento político contra a oligarquia.
E o tempo mostrou que eu estava certo historicamente. Não iria permanecer nem no PMDB e nem no PT depois que passaram a ser controlados, de cima para baixo, pelos interesses dos Sarneys.
E é importante ressaltar que permaneci no PMDB e no PT enquanto estiveram fieis a luta popular. Depois que tomaram o poder e deram as costas para o povo, para ser coerente fui obrigado a buscar outros horizontes.
MANDATO CONSTITUINTE
Fui eleito em 1986 deputado federal pelo PMDB e permaneci por todo o processo constituinte [o blog havia se enganado ao achar que Haroldo havia sido constituinte pelo PDT]. Votei em Mario Covas para líder do PMDB na constituinte. Participei do grupo de deputados de esquerda do PMDB que organizou o Movimento de Unidade Popular (MUP) na Assembleia Nacional Constituinte. Este grupo foi fundamental para assegurar importantes conquistas do trabalhadores no texto da Constituição Cidadã de 1988.
Estive no PDT por dois momentos. No primeiro, em 1990 quando, impossibilitado de permanecer no PMDB e sem clima para entrar no PT (presidido por Francisco Gonçalves, candidato a deputado federal que defendia o meu nome como candidato a governador pela oposição); tanto o PDT, presidido por Jackson Lago, como o PSB, liderado por José Carlos Saboia, me ofereceram legenda para que eu pudesse disputar a reeleição de deputado federal. Aí ingressei no PDT, com Maria Aragão, Euclides Moreira Neto e alguns outros companheiros.
Saí do PDT, em março de 92 quando o Jackson insistia em lançar o seu vice prefeito, Magno Bacelar, candidato a sua sucessão. Alguns companheiros do PDT queriam que eu disputasse a convenção contra o Magno. Não aceitei por entender que eu não tinha legitimidade para disputar contra o Jackson, trabalhista histórico e fundador do PDT. Saí sem brigas, pelo contrário, com muitos apelos, inclusive do Jackson, e de membros da bancada do PDT em Brasilia como Vivaldo Barbosa, Luis Salomão; Liberato Caboclo e tantos outros.
O segundo momento em que estive no PDT também foi a convite do Jackson Lago. Jackson governador, no exercício do mandato, me convidou, em 2007, para disputar o mandato de vereador no ano seguinte.
O próprio Jackson abonou minha ficha de filiação e queria que o PDT fizesse um ato público na ocasião. Ponderei por uma filiação normal, discreta, e ele aceitou que não realizássemos qualquer ato. Já estávamos no inicio da dura batalha em defesa do mandato popular do governador Jackson Lago.
LEMBRANÇAS DO PDT E JACKSON LAGO
“Ter tido o voto para vereador, em 2008, do governador Jackson Lago e da grande figura histórica que foi Neiva Moreira, muito me orgulha e me engrandece”
Rigorosamente, minha relação com o Jackson teve momentos de grande unidade e momentos de muitos conflitos.
Estivemos juntos, no MDB, em 1978 quando eu trouxe a São Luis o poeta Tiago de Mello, que já era meu amigo e depois se tornou grande amigo do Jackson.
Estivemos juntos, Jackson, Maria Aragão e tantos outros companheiros e companheiras na criação de Comitê de Anistia do Maranhão e, logo depois, na fundação, com o poeta Nascimento de Moraes Filho, do Comité de Defesa da Ilha contra a instalação da Alcoa em São Luis.
Estivemos separados da eleição para prefeitura de São Luis em 1985, quando ele foi candidato pelo PDT e eu pelo PMDB.
Mais uma vez separados quando ele apoiou Cafeteira para governador e eu, embora do PMDB, dissenti e não fiz campanha para os candidatos majoritários.
Nos reaproximamos em 1988 e criamos a União da Ilha (com Jose Carlos Saboia, do PSB, e Jaime Santana, do PSDB ) que vitoriosa elegeu Jackson Lago prefeito contra o candidato do então governador Cafeteira, o deputado Carlos Guterres.
Se Jackson e eu tivemos atritos ao longo da vida política, ora mais próximos ora mais afastados , dos dois momentos que a seu convite estive filiado ao PDT só tenho as melhores e as mais gratas lembranças.
Tenho a felicidade e o orgulho de ter tido o apoio e o voto do Jackson, da Dra Clay, do grande Neiva Moreira, de D.Lucia e Reginaldo Telles e de muitas outras lideranças do PDT à minha candidatura à Câmara Municipal de São Luis, em 2008.
Mesmo derrotado, fiquei na quarta suplência com 3 mil votos aproximadamente, tenho a convicção que fiz o mais correto historicamente ao utilizar toda a campanha de vereador em 2008 para denunciar a trapaça que Sarney e sua oligarquia armavam contra o Maranhão e contra o mandato popular de Jackson Lago.
Como a administração e o governo Jackson Lago não iam bem na opinião publica, muitos oportunistas (que se aproveitavam do seu governo) se esconderam e se calaram.
Eu, ao contrário, mesmo sem participar de sua administração e bastante crítico de seu governo, priorizei defender o seu mandato popular.
Com certeza, essa minha posição me tirou muitos e muitos votos, mas me deixou absolutamente tranquilo de que cumpri um papel histórico em defesa do Maranhão ao defender de peito aberto o mandato, governador eleito, em 2006, pelo voto dos maranhenses.
Mas, repito, ter tido o voto para vereador, em 2008, do governador Jackson Lago e da grande figura histórica que foi Neiva Moreira, muito me orgulha e me engrandece.
(A entrevista continua amanhã. Aguardo vocês)
BNC Política

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