Brasília - As violações
à liberdade de expressão é um questionamento
ímpar para as organizações nacionais. O tema ganhou
grande abrangência no ano de 2013, porém as sequelas da
mordaça que assola os direitos de comunicação,
não tomaram a dimensão necessária para conscientizar
corporações, governos e sociedade civil. De acordo com a
Artigo 19 – entidade que
trabalha em prol da ampla liberdade de expressão – a
dificuldade na busca e na mensuração dos verdadeiros
números dos casos de violação é o grande
desafio para que um panorama sobre esse problema no país seja
traçado. Entender as causas dessa violência é essencial
para buscar soluções. Para isso, é preciso compreender
onde se dão os casos de violência, sob quais
motivações, o perfil das vítimas e supostos
mandantes.
Mas para se chegar a um resultado preciso sobre a
violência contra a liberdade de expressão no Brasil, é
preciso realizar uma coleta de dados, que seria obviamente, exaustiva. A
extensão do país e falta de pesquisas panorâmicas que
busquem um olhar amplo sobre o problema, são os principais fatores
que dificultam os dados.
Dos 45 casos de graves
violações relacionados ao exercício da liberdade de
expressão identificados pela Artigo 19 em 2013, 29 aconteceram com
comunicadores (jornalistas, radialistas, blogueiros, comunicadores
comunitários e outros profissionais de comunicação) e
16 com defensores de direitos humanos (lideranças rurais, ativistas
ambientais, militantes políticos, líderes indígenas,
líderes quilombolas e outros).
As violações
contra comunicadores ocorreram em todas as regiões do Brasil. O
Sudeste do país foi mais violento para o exercício da
liberdade de expressão, com oito casos. As regiões Norte e
Sul apresentaram seis ocorrências cada. O estado de São Paulo
teve o maior número de casos, registrando cinco ocorrências,
ou seja, 62,5% das violências registradas na região Sudeste. O
estado do Rio Grande do Sul registrou 4 ocorrências. Minas Gerais e
Mato Grosso do Sul aparecem em terceiro lugar, ambos com três casos
cada.
Os principais motivos para as ameaças de morte,
tentativas de assassinato e homicídios ocorridos contra
comunicadores em 2013 foram denúncias realizadas pelas
vítimas. Com 25 casos, as denúncias representam 86% das
motivações. As críticas e expressão de
opiniões motivaram 14% das ocorrências, quatro casos. Dados
como este, indicam um cenário muito perigoso para a liberdade de
expressão no país.
Homicídios
Quatro comunicadores
já foram vítimas de homicídios em 2013 eram
profissionais de distintos veículos, sendo eles um radialista, um
repórter investigativo, um fotógrafo e um blogueiro. O caso
do repórter investigativo Rodrigo Neto e o caso do fotógrafo
Walgney Carvalho estão relacionados e ocorreram pelas mesmas
motivações. Walgney, além de estar colaborando para o
dossiê desenvolvido por Rodrigo, diza saber quem foram os
possíveis mandantes do assassinato do colega.
As
denúncias foram as possíveis motivações para
75% dos casos de homicídios dos comunicadores. Em Caxias do Sul, o
assassinato do blogueiro ativista parece estar relacionado a
críticas policiais muito presentes em seus textos e em suas falas,
apesar de as investigações apontarem uma tentativa de
assalto. Dos quatro casos ocorridos em 2013, três possivelmente se
relacionam com denúncias envolvendo órgãos de
segurança pública.
Uma tentativa de denunciar crimes
cometidos por policiais levou dois comunicadores à morte e as
críticas sobre a corporação policial aparecem de
maneira não esclarecida como a motivação para o
assassinato de um jovem militante e blogueiro. O único caso que
não se refere aos órgãos públicos é o do
radialista Mafaldo Bezerra Goes, que denunciava membros do crime organizado
em seu programa de rádio.
Os comunicadores têm o
importante trabalho de trazer informações e dados que
incentivem o debate público e o questionamento de temas
polêmicos e pouco abordados pela sociedade. Em um ano marcado pela
violência policial contra milhares de manifestantes que ocuparam as
ruas de diversas cidade brasileiras e profissionais de
comunicação que buscavam registrar os acontecimentos,
é preocupante que esse trabalho seja ameaçado por meio da
execução desses profissionais.
Os quatro
homicídios de comunicadores que possivelmente têm
relação com o exercício da liberdade de
expressão ocorridos em 2013 já chegaram à fase final
de investigação. No entanto, a conclusão das
investigações não encontrou e responsabilizou todos os
verdadeiros envolvidos no caso.
Tentativas
de assassinato
Em 2013, foram vítimas de
tentativa de assassinato comunicadores de diferentes veículos:
mídia impressa, mídia digital, rádio e TV.
Nenhuma mulher sofreou tentaiva de assassinato em 2013. No entanto, dois
casos ocorreram em sedes de veículos de comunicação e,
embora não tenham vitimado ninguém, poderiam ter atingido
profissionais mulheres. Ivonete Costa, por exemplo, é diretora do
Grupo Rondoniagora. É ela quem comanda o portal e é
responsável pela linha editorial do site, que possivelmente foi o
motivo que provocou o atentado na sede.
Seis dos sete comunicadores
que sofreram tentativas de assassinato por conta de denúncias tinham
como temática a gestão pública de suas cidades em seus
veículos de comunicação. Os comunicadores representam
um importante papel na democracia de um país, ao levantarem
informações pertinentes ao debate público sobe os
representantes políticos e inclusive proporcionarem um meio em que
um cidadão tenha voz para reivindicar seus interesses e expor suas
críticas, como o programa de rádio apresentado por uma das
vítimas, que contava com a participação da
audiência. A tentativa de impedir o trabalho desses profissionais
não interrompe somente o fluxo de informações dos seus
veículos, mas é capaz também de calar a sociedade.
A Agência Abraço continuará abordando e repudiando
todas as formas de violência contra a liberdade de expressão
no Brasil. Na próxima sexta-feira (06/06) continuaremos esta
reportagem, aprofundando mais sobre os protestos de 2013, questões
como os direitos humanos e a impunidade dos crimes contra imprensa.
Com informações da Artigo
19
Bruno Caetano
Agência Abraço
Foto:Reprodução
BNC Direitos humanos